Félix Zucco / Agencia RBS
Nesta terça-feira (26), professores lotaram Praça da Matriz, na Capital, em assembleia grevista.Félix Zucco / Agencia RBS

Ao final de uma década marcada por mobilizações minguadas, o magistério estadual volta a cerrar fileiras em uma greve capaz de unir a categoria – que, nesta terça-feira (26), lotou a Praça da Matriz, em Porto Alegre. Iniciado no último dia 18, o movimento atinge colégios que, até então, não tinham a tradição de parar. Há casos de municípios onde todas as escolas suspenderam as aulas, inclusive em locais do Interior onde a rede se resume a uma única instituição do tipo (leia mais detalhes no final deste texto).

 

Para ex-secretários da Educação e pesquisadores ouvidos por GaúchaZH, não há dúvidas de que o protesto em curso difere do que se viu no Rio Grande do Sul nos últimos dois governos. O estopim da revolta é a tentativa da gestão Eduardo Leite de revisar a carreira dos docentes. Datada de 1974, a lei que rege o tema nunca foi atualizada.

— Já passei por muitas greves e posso dizer com segurança: o plano de carreira é a única coisa que realmente mobiliza os professores — resume Iara Wortmann, 76 anos, ex-secretária da Educação no governo Britto.

Para Fernando Becker e Juca Gil, da Faculdade de Educação da UFRGS, o projeto que revê a progressão funcional é o estopim da reação. Pesam, também, 47 meses de vencimentos parcelados e cinco anos de salários defasados. 

— A verdade é que os professores não aguentam mais — resume Becker.

Pesquisador na área de políticas educacionais, Gil cita ainda a insatisfação diante do não pagamento piso nacional do magistério. Após 11 anos, a norma segue sendo descumprida. Nesse período, o Executivo foi comandando por três partidos diferentes (PSDB, PT e MDB). 

— Os professores foram suportando, foram remediando, mas parece que a bomba explodiu. É verdade que o plano de carreira tem problemas, mas a solução apresentada não garante melhorias nas condições de trabalho ou mais dignidade para os docentes — avalia o estudioso. 

— A categoria parou de embarcar em greves por reajuste, porque viu que não davam em nada. De repente, surge algo que parece factível: tentar impedir a aprovação do projeto que muda o plano de carreira. Mas isso é um equívoco. Se esse plano é tão bom, como os professores chegaram à situação atual? O governo precisa explicar as discrepâncias — diz Mariza.

Leite, que nesta terça-feira (26) sinalizou com a possibilidade de modificações na proposta, vem tentando fazer isso. Na última segunda-feira, ele divulgou vídeo esclarecendo os motivos das mudanças, garantindo que não haverá perdas e prometendo melhorias aos que ganham menos. O governador reclama da falta de diálogo por parte do Cpers e sustenta que alterações são necessárias para que os mestres possam receber o piso e voltar a ter perspectivas promissoras:

— Com a mudança, o Estado passa a ter a possibilidade de dar aumentos que hoje são impossíveis, porque são impagáveis. Sabemos que o futuro imediato não é o ideal, é claro, mas é melhor do que hoje. Ficar como está é a pior solução possível.

Presidente do Cpers-Sindicato, Helenir Schürer discorda de Leite e não perdoa o governador por ter determinado o corte do ponto dos grevistas. A medida, segundo ela, reforça a insatisfação. Em assembleia no centro da Capital, nesta terça-feira (26), a categoria decidiu pela continuidade do movimento.

— Posso dizer com tranquilidade: nos últimos 10, 15 anos, nunca tivemos uma greve tão forte e vamos até o fim — diz a sindicalista. 

No interior, professores param pela primeira vez e escolas aderem 100% à greve

Escola Eduardo Secco / Divulgação
Equipe da Escola Estadual Eduardo Secco, de Sertão Santana, marcou presença no ato do magistério na Capital.Escola Eduardo Secco / Divulgação

Assustados com a possibilidade de mudanças no plano de carreira, professores que nunca haviam entrado em greve decidiram parar. Mesmo onde há apenas uma escola estadual, aulas estão paralisadas por tempo indeterminado.

É o caso de Sertão Santana, município de 6,4 mil habitantes na Região Centro-Sul. Lá, a Escola Comendador Eduardo Secco – única da rede, com 340 alunos – aderiu à mobilização. Conforme a vice-diretora Tânia Giru de Medeiros, 53 anos, é a primeira vez que isso ocorre. 

A docente afirma que a decisão foi explicada à comunidade:

— Organizamos mateada, fomos na rádio, na prefeitura. Como a gente é do Interior e a mentalidade é mais conservadora, tínhamos receio da reação, mas recebemos apoio.

Escola Estadual de Ensino Médio Gonçalves Lêdo / Divulgação
Professores de colégio estadual em Mariana Pimentel decidiram cruzar os braços em protesto.Escola Estadual de Ensino Médio Gonçalves Lêdo / Divulgação

A 17 quilômetros de distância, em Mariana Pimentel, a Escola Gonçalves Lêdo vive a mesma situação. Com 139 alunos, também é a única estadual de Ensino Médio no município. Neste ano, comemora 80 anos.

— Já fizemos paralisações de um dia, mas é a primeira vez que todos aderem. Chegamos ao limite. O governo pode até cortar o ponto, isso não faz diferença para quem já recebe parcelado. O que não aceitamos é perder direitos — afirma a vice-diretora Elizandra Pazutti Magagna, 43 anos.

Em Barão do Triunfo, na mesma região, a Escola José Joaquim de Andrade também aderiu. Não há outros estabelecimentos estaduais no município. 

— Enquanto era só o parcelamento, a gente estava dando um jeito. A partir do momento em que ameaçam nossos direitos, é diferente — diz a diretora Rosane Gonçalves, 50 anos.

As três instituições enviaram representantes à assembleia promovida nesta terça-feira (26) pelo Cpers-Sindicato na Praça da Matriz, em Porto Alegre. O ato acabou com confusão. Manifestantes forçaram a entrada do Palácio Piratini e a BM entrou em confronto com eles. Ao todo, 13 ficaram feridos – 11 professores e estudantes e dois policiais.

Fonte: Zero Hora