Esportes

Corações gigantes: a fria noite em que a rivalidade Gre-Nal aqueceu moradores de rua de Porto Alegre

Por Matheus Beck — Porto Alegre

Corações gigantes: a fria noite em que a rivalidade Gre-Nal aqueceu moradores de rua de Porto AlegreCorações gigantes: a fria noite em que a rivalidade Gre-Nal aqueceu moradores de rua de Porto Alegre

Matheus Beck
Eu nunca esquecerei da noite que passei com uma centena e meia de moradores de rua. O Gigantinho nos esperava com 300 colchões e cobertores espalhados pela quadra. No portão principal, funcionários da Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc) faziam o acolhimento, triagem e vacinavam cada um que chegava. Em uma das saídas, era visível o vapor das panelas onde integrantes da ONG Cozinheiros do Bem preparavam uma sopa cremosa encorpada com legumes. Em outra, voluntários faziam a triagem de 2 mil cobertores e 50 mil peças de roupa doadas.

 
 
Moradores de rua de Porto Alegre contam suas histórias no Gigantinho

Moradores de rua de Porto Alegre contam suas histórias no Gigantinho

O termômetro marcava 7ºC, mas o vento que cortava a noite deixava uma marca muito mais gelada na pele. A sensação era de algo próximo a 0ºC. Até mesmo por isso, dois grupos se distinguiam no ginásio: aqueles que queriam comer e aqueles que queriam uma roupa para vestir. A maioria, no entanto, não planejava passar a noite ali. Queria voltar para baixo de alguma marquise a qual se acostumou chamar de casa ou empurrar o carrinho com seus pertences.

Havia muitos colorados, por óbvio, e também alguns gremistas. O frio não escolhe time, não é mesmo? Algumas pessoas eram até arredias. O menor vínculo social era incômodo. Resignavam-se ao seus espaços, agradecendo pelo alimento e buscando um momento de paz. Quem quebrava esse gelo eram as crianças. Sempre elas! Martina Saballa, de 11 anos, foi com a mãe levar R$ 5 mil em edredons. Ficaram e auxiliaram na distribuição. Inúmeras vezes ouvia-se os passos da menina correndo entre os colchonetes carregando um par de tênis ou uma touca que encontrava, entregando aos novos amigos o agasalho desejado.

Moradores de rua no Gigantinho — Foto: Matheus BeckMoradores de rua no Gigantinho — Foto: Matheus Beck

Moradores de rua no Gigantinho — Foto: Matheus Beck

Por volta das 21h30, os funcionários do Inter começaram a recolher os materiais e a fechar os portões. Do lado de fora, via-se aqueles que decidiram encarar a madrugada a céu aberto carregando os materiais doados. O que sobrar, será destinado a outras entidades assistenciais de Porto Alegre. Dentro do Gigantinho, porém, muitos se aninhavam à espera de um sono tranquilo e do café da manhã. A partir das 7h, quando a temperatura começar a subir novamente, eles terão de deixar o ginásio. Mas nunca poderão esquecer da noite que a rivalidade ajudou a esquentar.

Leia abaixo algumas histórias dos moradores de rua que passaram pelo Gigantinho nesta sexta-feira:

Luiz Carlos Sousa Maia, 74 anos, nasceu em Bagé e trabalhou por 61 anos. Morou no Rio de Janeiro por muito tempo, foi datilógrafo em uma redação de jornal, teve empregos com ótima remuneração, mas um problema no cálculo da previdência fez com que se aposentasse recebendo apenas um salário mínimo. Há três anos, quando a esposa Regina não suportou o terceiro AVC, mudou-se para a rua, pois não conseguia pagar as despesas e tratamento médico. Perambula de um albergue a outro a cada 15 dias enquanto aguarda a resposta do INSS por um valor que possa dá-lo uma moradia digna

“Não tenho condições de alugar nada com o que recebo, e também não tenho como me alimentar. Estão me pagando o mínimo do mínimo do INSS. Sempre tive salários altos, e agora estou recebendo uma ajuda de custo que nem eu nem meu advogado aceitou. Já entrei com dois recursos. Entrei com um, alguns anos atrás, e entrei com outro agora para ganhar o que tenho direito a receber. Minha maior dificuldade são todas, porque nunca estive na rua. Sempre trabalhei, desde os 14 anos, e sempre tive um teto para morar. Tive uma hérnia e não pude fazer cirurgia. Tenho uma na virilha, que me dói muito, queima muito, e na rua não se consegue dormir. Fico um tempo na rodoviária de Porto Alegre sentado, sem dormir, porque não tenho condições. Não tenho lugar para ir. Fiquei em albergues, mas é por 15 dias. Depois, tem que procurar outro. Fui concursado em Taquara (RS), no gabinete do prefeito, e depois vim para cá. Quando cheguei, não tive condições de trabalhar, por isso parei. Era para descansar, e até agora está na justiça. Quando perdi minha esposa, vi que não tinha mais condições de arcar com as despesas. Como vou pagar um aluguel se não tenho de onde tirar? Estou esperando receber um salário digno de quem trabalhou 61 anos e teve os descontos (previdenciários) por 61 anos. Estou esperando por isso.”

 

Morador de rua no Gigantinho — Foto: Matheus BeckMorador de rua no Gigantinho — Foto: Matheus Beck

Morador de rua no Gigantinho — Foto: Matheus Beck

Karine Silva dos Santos, 39 anos, mora na Vila Resbalo, em Porto Alegre. Foi ao Gigantinho buscar roupas e cobertores para as duas filhas. Saiu com leite e um kit com diversos materiais. Para ela, a situação não é de rua, pois vive em uma moradia irregular, mas de pobreza extrema que exige uma atuitude extrema

“Estou separada há nove meses. Sou recicladora de material de reciclagem e esta é a minha situação: não estou em situação de rua, mas estou em situação de pobreza. Foi divulgado pela televisão, e muito amigos recicladores me comunicaram. Não vim para dormir. Tenho onde dormir. Mas vim buscar coberta, roupas para minhas filhas, comida. Nossa situação não é de rua, mas de pobreza.”

David Custódio Duarte nasceu com mielomeningocele, um defeito congênito que afeta a espinha dorsal, hidrocefalia e outras condições físicas. Aos 33 anos, mora na rua e se desloca pela capital com todas as dificuldades que um cadeirante enfrenta no dia-a-dia. Ele quer, contudo, que sua história inspire outras pessoas a superar essas adversidades e encare a vida com altivez

“Estou na rua, a bem da verdade, por opção. Conheci minha família com 24 anos. Fui adotado algumas vezes e não deu certo, porque só comecei a aceitar minha condição física há alguns anos. Desenvolvi depressão, algumas cisas que não são legais devido à não aceitação da minha condição. Esse cabeção é porque tenho hidrocefalia. Todo mundo tem esse líquido no cérebro, mas eu tenho em demasia em decorrência da complicação da minha espinha não ter se formado direito. Também tenho bexiga neurogênica, que é uma bexiga que não urina todo o conteúdo espontaneamente. Tenho que fazer sondagem para eliminar tudo. Enfim… Com fé em Jesus Cristo… Apenas isso… Caio, sim, mas me levanto com a graça dele. Vai fazer 11 anos que estou na rua. A última vez, saí no dia 7 de agosto de 2008, e não me arrependo. Faria de novo. O que procurei foi crescimento como ser humano. Entender o que sou e o que é meu semelhante. As experiências na rua são muito mais intensas e muito mais rápidas do que numa vida normal. Não me arrependo!”

Morador de rua no Gigantinho — Foto: Matheus BeckMorador de rua no Gigantinho — Foto: Matheus Beck

Morador de rua no Gigantinho — Foto: Matheus Beck

Carlos Roni de Araújo conta que era empreiteiro em Camaquã, tinha dois peões e levava uma vida razoável. Tornou dependente de álcool, começou a usar cocaína e, aos 42 anos, mora na rua. Um dia, foi a um bordel e ligou para a mulher de lá, jogando fora um relacionamento de cinco anos. Entende que hoje paga pelo que causou à família e se arrepende de ter abandonado o filho Marvin Edson — o primeiro nome, devido à canção dos Titãs; o segundo, em homenagem ao avô, pai de Carlos.

“Em 1º de janeiro de 2007, vim a pé (de Camaquã). Levei dois dias e meio para chegar aqui. Por causa da dependência. Sou mais alcoólatra do que drogado, sabe? Se não usar álcool, não uso nada. Nem fumar cigarro eu fumo. Mas se eu usar o álcool, abre os caminhos para outras porcarias. Botei uma família linda fora. Minha mulher e meu filho, que vai fazer 16 anos agora. Quando me separei, ele tinha quatro aninhos. Para ‘mim’ ver, agora que vai mudando a fisionomia, vou na lan house, pago R$ 5 a hora e vejo no Facebook. Aí eu vejo a pecinha como é que está. Tá lindo! Mas me arrependi. Se pudesse voltar no tempo, queria voltar desde o início do meu casamento e criar ele que nem a mãe tá criando, sendo mãe e pai ao mesmo tempo. Aqui, faz 12 anos que estou na rua, e esta união entre Colorado e Grêmio, que é uma torcida sem rivalidade, e conhecendo o Gigantinho por dentro… gostei. Bom mesmo.”

Fonte: Globo Esporte